Por Luiz César Cozzatti, médico e crítico de cinema.

DIRETOR: Martin Scorsese
ANO: 2002

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GANGUES DE NOVA IORQUE, de Martin Scorsese (Nova Iorque, 17/11/42), é um acontecimento. Certamente, não é obra-prima como Taxi Driver(1976) ou Touro Indomável(1980), pois tem falhas no roteiro e na construção de personagens, que podem ser devidas a uma redução forçada na versão final do produtor. Mesmo assim, o 20 º longa deste diretor ítalo-americano é, até fevereiro último, um dos dois filmes americanos (dos doze lançados até então lançados) dignos de atenção nos primeiros dois meses do ano cinematográfico recém-iniciado. Curiosamente, o outro filme americano destacável , o sofisticado e metalinguístico Femme Fatale, do também ítalo-americano Brian De Palma, é outro exemplo de uma produção americana que só se viabilizou pelo aporte de capitais europeus, uma vez que Hollywood anda numa fase de vulgaridade e infanto-juvenilismo absolutos.
Os dois diretores são exemplos de artistas que vêm no seu trabalho uma forma de desvelar a condição humana através da metáfora artística, no caso, das imagens em movimento. Scorsese é aquele que manteve mais íntegra sua carreira, mesmo em momentos em que se viu obrigado a aceitar trabalhos de encomenda, os quais – se resultaram em trabalhos menores – ainda assim possuem pontos de contato com seus demais filmes mais empenhados e melhor resolvidos. Alice não Mora mais Aquí(1974), A Cor do Dinheiro(1986) e Cabo do Medo(1991) são obras plenamente integradas a sua filmografia e com vários pontos de contato com suas obsessões temáticas e estilísticas.

VIOLÊNCIA

Avulta em seus filmes mais logrados uma clara intenção de analisar a sociedade americana e seus (des)valores, que informam a violência endêmica presente no cotidiano individual e coletivo. Já se disse e se reclamou, muito ingenuamente, da violência contida nas tramas e imagens de seus filmes, desde os seus primeiros filmes como Sexy e Marginal(1972), um Bonnie & Clyde B rodado por encomenda do independente Roger Corman e que já continha as suas típicas obsessões cristãs de culpa, pecado e redenção, que irão se constituir numa marca registrada do realizador, no autobiográfico Caminhos Perigosos (1973) ou no já citado Taxi Driver. Há, em seus filmes, ecos de mestres que também exploraram o tema, do pioneiro John Ford ao mais moderno e diretor Sam Peckimpah (1926-1984), este último construtor de uma estética da violência, através de clássicos como Meu Ódio Será sua Herança(1969) e Sob o Domínio do Medo(1971). Hollywood incorporou a aparência da violência, visando apenas a catarse lucrativa, sem a contrapartida de uma visão mais crítica sobre a agressividade humana individual e social, algo que Scorsese fez com maestria no antológico Touro Indomável (1980), de longe o melhor filme sobre o mundo do boxe e poderosa metáfora da sobrevivência do indivíduo numa sociedade marcada pela competição e pelo abuso do poder econômico e midiático.

Gradualmente, as preocupações de Scorsese, ele mesmo membro de uma família com ligações estreitas com a máfia e com a igreja católica (o que aparece no citado Caminhos Perigosos), vão se centrando num alentado painel crítico das origens do poder americano. Com a cronologia invertida, porém. Depois dos filmes de gangster como Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995), cuja ação transcorre na segunda metade do século XX, e de um afresco de época, requintado e detalhista à maneira do barroco e marxista Luchino Visconti(1906-1976), A Época da Inocência(1993), com ação centrada na Nova Iorque de 1870, chega a vez de examinar os antecedentes históricos desses filmes.

Gangues de Nova Iorque baseia-se em um livro do jornalista americano Herbert Asbury (1891-1963), publicado pela primeira vez em 1928 e lido por Scorsese em 1970. Foi amor à primeira vista. Transcorre entre 1846 e 1862, quando duas grandes gangues rivais lutavam pelo controle do submundo e do poder em Nova Iorque. De um lado, os Nativistas, liderados por Bill the Butcher (Bill, o Açougueiro), que se orgulhavam de terem nascido em solo americano, embora de origem européia, e protestantes, os mais tarde cognominados WASP (White, Anglo-Saxo, Protestant) brancos, anglosaxônicos e protestantes . Do outro, os Coelhos Mortos,liderados pelo “padre” Vallon , que abrigava os emigrantes recém-chegados, católicos predominantmente irlandeses. O filme começa pelo confronto desses bandos rivais, que emergem da soturna Velha Cervejaria para uma briga vale-tudo na praça central das Cinco Pontas, um dos pontos da miserável Manhattan de então.

Fascinou ao diretor a oportunidade de ver como, segundo ele, “o início da imigração em larga-escala permitiu que se testassem os valores que a América supunha personificar. E, certamente, o submundo dos primórdios do século XIX era muito diferente daquele de hoje porque estava muito estreitamente ligado aos partidos políticos”(entrevista concedida a Ian Christie , Sight and Sound, janeiro de 2003.). De certa maneira, Scorsese dá a sua visão da constituição do capitalismo americano urbano, tal como o fizera antes Michael Cimino no meio rural com aquela admirável obra-prima Portal do Paraíso( 1980), que mostrava o massacre dos pequenos agricultores imigrantes pelos latifundiários que ocuparam as terras americanas a ferro e fogo, matando índios e concorrentes.

CRÍTICA

A filmografia de Scorsese é , assim, um inventário histórico filtrado pelo espetáculo dramático, onde o drama individual de seus personagens tem como pano de fundo as lutas fundadoras da nação americana. Valendo-se da reinvenção dos gêneros caros à tradição, subverte as convenções e expectativas, no dizer do rigoroso Robin Wood, que aponta como exemplos trangressivos Touro Indomável e New York,New York, o filme de boxe e o musical, porque Scorsese se vale dos gêneros para uma crítica radical da cultura americana e seus contraditórios valores.

A batalha entre as gangues rivais é vencida por Bill (uma magnífica criação de Daniel Day-Lewis,Oscar 89 por Meu Pé Esquerdo e novamente concorrendo este ano), que envia o filho de seu rival morto a um internato protestante. Dezesseis anos depois, é o momento da vingança. O jovem Amsterdam Vallon (Leonardo Di Caprio) retorna para acertar contas. Encontra um camarada de internato, Johnny (Henry Thomas), que é fascinado pela trapaceira Jenny (Cameron Diaz), amante de Bill. Mas quem consegue as boas graças da moça é Amsterdam,provocando ciúmes no seu amigo. Por sua vez, a esperteza e audácia do jovem chama a atenção de Bill, que faz dele o seu braço direito, até descobrir suas intenções.

O TRIÂNGULO EDÍPICO

Como em O Rei da Comédia( 1983), A Cor do Dinheiro (1986), A Última Tentação de Cristo(1988) e o próprio Cassino, ronda a triangulação edípica nesta história de um homem ambivalente em relação a uma figura dotada de poder e autoridade, que compete e supera o mais velho, inclusive roubando-lhe a namorada. Uma metáfora do desenvolvimento psicológico do indivíduo segundo Freud, mas não apenas isso, neste filme simbolicamente rico, onde a escura e tosca cervejaria, repleta de subterrâneos, lembra uma representação da própria psiquê humana corporificada no cérebro.

Fora essa leitura psicológica, há outras. A leitura política da constituição de uma sociedade de classes, onde o pobre imigrante é convocado para ser bucha de canhão na luta entre Sul e Norte, onde só ficam de fora do front aqueles que possuem trezentos dólares, razão, aliás, de um justificado motim civil , reprimido pelos canhões da Armada Naval americana. É um momento de transição da história americana, na qual as hordas primitivas se institucionalizam e migram para a política ou instituições de controle social como a polícia. A sociedade se torna mais complexa e exige instituições de igual nível, que possam ritualizar os conflitos sociais, mantê-los sob controle das classes proprietárias dos meios de produção. É isso que o simplório Bill não entende, quando políticos como Tweed (o oscarizado em 2002 Jim Broadbent) pedem votos e não toleram mais o racismo contra os negros e irlandeses, que vêem como potenciais eleitores. Gangues, com sua violência manual, facas e grosserias explícitas, estão fora de moda. O poder, agora, vem envolto em mãos de pelica. A selvageria do populacho tem de ser contida e, tanto quanto possível, neutralizada. É o mesmo dilema dos caubóis do faroeste. O tempo da resolução individual das diferenças acabou. Agora, quem media tudo é a grande e anônima instituição, sejam os 3 poderes da república ou as grandes transnacionais americanas e européias.

Esse é o grande pano de fundo. Scorsese aparece num pequeno papel como um dos refinados homens dos novos tempos. Como Hitchcock, ele gosta de anônimas pontas e se representa como um membro da classe privilegiada, um artista tolerado pela corte pelo seu talento invulgar e capaz de dar substância à premiação do Oscar numa época em que a imensa maioria dos filmes tem mais a ver com videogames de consumo rápido e indolor. Ele sabe que, como o título da canção tema do U2, “As mãos que construíram a América” pouco poder tem para evitar uma guerra anunciada por um usurpador que venceu as eleições através de um canetaço pouco democrático.

Preocupado com o caráter mural e épico de seu filme, Scorsese relaxa um pouco na construção do romance de seu casal central, cuja atração parece pouco consistente. O personagem melhor construído como ser humano é o próprio Bill, o bandido da história. Mas o filme tem valores suficientes para se constituir em programa de visão obrigatória, até pela sua lucidez e audácia criativa. Há cenas memoráveis, como as da primeira batalha, onde a montagem e o som fazem maravilhas, seguindo as lições de Hitchcock e dos mestres russos como Eisenstein, Pudovkin, Dovzhenko. O grande iluminador Michael Ballhaus e o cenógrafo Dante Ferretti, que respectivamente captaram e recriaram a primitiva Nova Iorque nos estúdios romanos de Cinecittá, num trabalho admirável que poderia aspirar ao Oscar nas suas respectivas categorias (além das já citadas, o filme foi indicado para filme, direção, roteiro original – pois o livro de Astenbury só forneceu os personagens e situações básicos; canção – a já citada do U; som, montagem e figurino). Saiu da noite de 23 de março de mãos abanando. Foi o grande injustiçado da noite. Mas quem conhece o Oscar sabe que filmes que denunciam patriotadas não tem chance. Ainda mais quando se propõem a fazer a arqueologia do capitalismo americano, um dogma nacional..Pena, pois Scorsese nunca levou um Oscar, apesar de ser daqueles autores que dá consistência e relevância cultural e artística (o chamado status) à produção hollywoodiana. O cinéfilo sabe o quanto representa a alta arte de Scorsese no 1,99 dos estúdios americanos. Mesmo ignorado pelo Oscar.