DIRETOR: Denys Arcand
ANO: 2003

Coment√°rios:
J√° √© quase uma unanimidade. Um dos dez melhores filmes de 2004 √© o canadense Invas√Ķes B√°rbaras (2003), realizado por Denys Arcand, como uma esp√©cie de continua√ß√£o de seu O Decl√≠nio do Imp√©rio Americano (1986). Seus protagonistas s√£o professores universit√°rios √†s voltas com as solicita√ß√Ķes e contradi√ß√Ķes da vida moderna e p√≥s-moderna, as variadas crises sofridas e as ideologias que se sucedem vertiginosamente num mundo em constante muta√ß√£o de valores.

Arcand √© um fil√≥sofo que se vale da c√Ęmera para questionar a condi√ß√£o humana, uma vers√£o americana (canadense) do aposentado mestre italiano Michelangelo Antonioni,que nos anos 60 registrou em magn√≠ficos planos-sequ√™ncia toda o vazio de u ma sociedade baseada na aflu√™ncia e no alto consumo. Seus personagens de A Aventura, A Noite e O Eclipse s√£o membros de uma elite desencantada e c√≠nica, incapaz de estabelecer um sentido humano nos relacionamentos baseados num narcisismo impiedoso e na incapacidade amorosa e de comunica√ß√£o. Arcand traz personagens de classe m√©dia, igualmente desencantados e perplexos pelo neo-barbarismo dos tempos de globaliza√ß√£o e neo-liberalismo, onde a a√ß√£o coletiva foi desprestigiada e questionada como algo antigo e superado.

Hoje,sabemos que antigo foi o laisser-faire que levou o Estado moderno a abdicar de seu car√°ter de coordenador e redistribuidor da riqueza privada. Ao voltarmos ao tempo das cavernas, onde prevaleceu a vontade do mais forte fisicamente(ou economicamente), chegamos a impasses civilizat√≥rios que exigem o resgate de alguns valores atemporais e inerentes √† esp√©cie. Por isso, R√©my e seus amigos nos provocam um sentimento de cumplicidade e identifica√ß√£o quase imediatos. Seus pecados s√£o perdo√°veis, frente √† manuten√ß√£o de valores essenciais como a amizade, a solidariedade, a intimidade, a franqueza, a recusa √† mentira e ao artif√≠cio. Frente ao barbarismo dos tempos neo-modernos, ego√≠stas, onde a apar√™ncia suprimiu a ess√™ncia, onde o que vale √© a embalagem e n√£o o conte√ļdo (n√£o √© √† toa que vivemos sob a suave mas absoluta ditadura do marketing, essa diab√≥lica inven√ß√£o que faz da mentira objeto de domina√ß√£o e lucro, de manipula√ß√£o da ingenuidade das massas cuja √ļnica liberdade √© a de consumir( quando se tem recurso e emprego para tal), a comunidade de amigos de R√©my antep√Ķe a intimidade e a cumplicidade.

Fico me lembrando do cl√°ssico de Ingmar Bergman, Gritos e Sussurros( 1973,dispon√≠vel em VHS e DVD,de vis√£o obrigat√≥ria), onde o que fica da vida s√£o os pequenos e cotidianos gestos de carinho,compaix√£o, cuidado pelo outro, respeito por sua dignidade intr√≠nseca. Ou do cl√°ssico de outro cineasta,o japon√™s Akira Kurosawa, Viver,onde o sentido da vida de um paciente terminal √© obter junto √† prefeitura um campo de esportes infantil. O t√≠tulo de outros filmes de Arcand, Jesus de Montreal e Amor e Restos Humanos, filmes extraordin√°rios, pain√©is de toda uma lciviliza√ß√£o em crise, remete ao que realmente importa e que parece t]ao simples mas √© t√£o dif√≠cil de praticar, num tempo marcado pela Lei de Gerson,onde todos querem tirar vantagem em tudo (e s√≥ se tira vantagem SOBRE O OUTRO). Grande e imprescind√≠vel Arcand, a nos colocar frente a um inc√īmodo espelho,onde circulam temas sempre fundamentais como rela√ß√£o pais e filhos, o uso da droga, o poder do dinheiro, verdades e mentiras, intimidade do casal e por a√≠ vai. Interessaria at√© os esquim√≥s, na vis√£o do sempre grande Nelson Rodrigues.