Por Luiz César Cozzatti
DIRETOR: Jorge Furtado
ANO: 2002


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Valeu a pena esperar: O Homem que Copiava corresponde às expectativas de quem acompanha a carreira do gaúcho Jorge Furtado. Embora cronologicamente seja seu segundo filme – Houve Uma Vez Dois Verões foi lançado no ano passado, embora o projeto fosse quatro anos mais novo – nota-se nele maior empenho autoral, com a busca de uma linguagem mais pretensiosa e elaborada, relembrando seus melhores momentos de seus melhores curtas, o paradigmático e multipremiado Ilha das Flores (1989) , o paródico e igualmente premiadíssimo O Dia em que Dorival Encarou o Guarda (1986) e o metalingüístico O Sanduíche (2000).

Pode-se notar características temáticas e estilísticas que conformam uma obra com nítidos traços autorais, realçados pela constância de uma equipe – da produtora Casa de Cinema – que vem contribuindo com seu talento para o aperfeiçoamento qualitativo de sua produção.

Para início de conversa, Jorge é uma cria da cinefilia portoalegrense. Numa entrevista a Maria do Rosário Caetano na Revista de Cinema (n° 27, julho de 2002), o cineasta “entrega” suas influências, quando informa ter visto na mágica tela do Bristol dos anos 70 e 80 Fellini, Kubrick, Bergman, Visconti, Antonioni, Woody Allen, Milos Forman e Ettore Scola. Aliás, como síntese, podemos ver algumas identidades no estilo de Scola com o do jovem diretor gaúcho: uma busca da comunicação com o público médio, o humanismo no tratamento dos personagens, todos desenhados de forma crível e consistente (algo muito raro no cinema brasileiro atual, com as exceções justamente reconhecidas por crítico e público de Carandiru, Abril Despedaçado e Cidade de Deus) e a exploração do cotidiano como ponto de partida de uma proposta que mescla ação e reflexão.

Para além do reducionismo simplista da crítica (?) hoje predominante nos jornalões e semanários, que abre mão da valoração crítica em troca de uma boa piada (nem sempre tão boa como parece ser à primeira vista) – e abramos exceções para um Luiz Carlos Merten, um Hélio Nascimento, um Luiz Zanin Oricchio, um Pedro Butcher, um Inácio Araújo, um José Geraldo Couto – há que se dizer que recriminações ao trabalho de Furtado tendem a ver como defeito o que são virtudes. Por exemplo, alguns traços da linguagem televisiva, a rapidez dos planos, o ritmo acelerado, a mescla de recursos de linguagem que refletem a multiplicidade do mundo em que vivemos caracterizado pela globalização e pelo sincretismo.

O cinema moderno é uma síntese das artes e se estas se multiplicam e se transformam, ora viva. Animação, documentário, cinema, tv, literatura, tecnologia, esse o mundo, e feliz quem mescla Aristóteles e Quentin Tarantino, a alta arte e a literatura pulp em imagens que revelam o mundo polifacetado em que vivemos, com habilidade, comunicabilidade, e procura nas entrelinhas , brincando, denunciar também a falta de perspectivas de um mundo regido pela opressão, mas que consegue dar a volta por cima. No cinema, mundo do sonho, sair da exclusão econômica pode se dar por um golpe de sorte e já aí existe uma ironia. A sorte não é para todos.

Assim como o final aberto e aparentemente otimista de Houve Uma Vez Dois Verões contempla uma redenção pelo amor psicologicamente inconsistente. Parece que o diretor, consciente ou inconscientemente, parece propor ao espectador: e então, cara, qual é a real mesmo? Happy end, felizes para sempre…Quem é que acredita? Para um xeroqueiro sortudo, milhões que nunca chegam lá. Porque a questão é extremamente individual. A vida real pode admitir que um operário chegue ao poder, ainda que sob o preço da domesticação ao interesse populista das elites, mas esse é o limite, e ainda para poucos.

Aquele final no Cristo Redentor, braços abertos de Deus, sei não…Há mais ironia do que o politicamente correto pode admitir. E o papel da mocinha ingênua, hein? Mulheres modernas são – ou podem ser – poderosas . Há aí uma subversão da imagem tradicional das mocinhas do cinema brasileiro e mundial. Times are changiiiing, canta o nosso querido fanhoso Bob. Como as imagens espertas e sedutoras de Furtado, janela indiscreta para um mundo esquecido, o suburbano, raras vezes examinado com isenção e simpatia como neste filme.

Para além do subúrbio das páginas de polícia, cheio de traficantes e superviolência, há relações mais discretas e não menos importantes, incestos, micro-opressões familiares, tudo isso desnudado com bom humor, amor pelo cinema (as citações de Hitchcock- a visão do mundo via binóculo como em Janela Indiscreta, como de outros cineastas, estão ali de corpo presente e de tão grata lembrança aos que amam o cinema de Capra, Woody Allen, etc).

Vejam o segundo longa de Furtado e concordem conosco, para além das incompreensões que nivelam os detratores ao xeroqueiro André vivido por Lázaro Ramos, enquanto percepção superficial e fragmentária da realidade.

Se Lázaro não está tão bem como nos seus filmes anteriores (parece pouco à vontade), em compensação Leandra Leal e Luana Piovani (esta última como uma versão brazuca de Marilyn Monroe) deitam e rolam e Pedro Cardoso está brilhante como sempre, fazendo o seu papel. E até o final destoa da moral tradicional, lembrando que ladrão que rouba de ladrão tem cem anos de perdão.