A partir do momento em que um casal começa a planejar ter um filho, inicia-se um processo de construção psíquica da imagem de como esse deverá ser no futuro. Nessa imagem fantasiada os pais colocam muito de suas expectativas e sonhos. Esse filho deverá ter as qualidades que os pais mais admiram – inteligência, beleza, capacidade afetiva ou personalidade forte, por exemplo.

“O bebê sonhado é um composto de impressões e desejos originados nas próprias experiências dos pais” (Klaus & Kennell, 2000, p. 150). E essas experiências da vida dos pais podem ser as mais diversas, gerando-se disso as mais variadas expectativas, todas elas investidas do afeto que nutre as relações entre pais e filhos.

Mas, quando acontece o nascimento do filho, sempre há uma diferença entre o bebê imaginário dos pais e o bebê real que está chegando na família. Essa diferença sempre demanda algum esforço de adaptação, podendo ser facilmente superada pelo investimento amoroso dos pais em seu filho.

O esforço de adaptação será mais difícil quanto maior for a distância entre o sonho e a realidade. Quando os bebês nascem com algum tipo de malformação, essa questão torna-se ainda mais complicada. A distância entre o bebê idealizado e o filho nascido com malformação ou com algum outro distúrbio importante do desenvolvimento (deficiência mental, sensorial ou autismo, p. ex.), é muito maior. Nesses casos, os pais têm que lidar com grandes frustrações de seus projetos e sonhos, o que se constitui num grande desafio. O presente trabalho pretende abordar as formas como os pais podem lidar com esse desafio e as respostas disfuncionais mais comuns que apresentam: a separação do casal, as preocupações excessivas, o estresse crônico e a vergonha social. Cenas do filme “O óleo de Lorenzo” ilustram o tema a ser apresentado.

Luiz Carlos Prado – Médico Psiquiatra, terapeuta de casais e famílias do Instituto da Família de Porto Alegre.