Entrevista realizada por Adriana Zanonato, coordenadora de divulgação e publicação da Agatef, com o psicólogo Oswaldo M. Rodrigues Jr..

O que pensam sobre o amor?

O amor deve ser encarado como uma forma desenvolvida pela humanidade para a manutenção de convívio conjugal e familiar, produzindo mecanismos e identificação importantes que permitem outros mecanismos construtivos socialmente.

O amor permite a express√£o de emo√ß√Ķes positivas e traz como resultado sentimentos de bem estar e confian√ßa. O amor permite as pessoas envolvidas em sentirem-se seguras e poderem planejar futuro (diferente das paix√Ķes).

Assim o amor se mostra um afeto elaborado organizado acima das emo√ß√Ķes reativas e mais simples que temos no dia-a-dia.

a paix√£o, como se diferencia do amor?

A paix√£o torna-se um elemento emocional forte que impulsiona para a a√ß√£o e que compete com elementos racionais tornando a a√ß√£o em irracional apenas dirigida pelas emo√ß√Ķes e viv√™ncias emocionais sem planos de futuro inclu√≠dos.

A paix√£o inclui a dificuldade em lidar com frustra√ß√Ķes, podendo incluir emo√ß√Ķes destrutivas no processo.

O elemento destrutivo se coaduna com as ansiedades existentes na paixão e nas dificuldades de lidar com a frustração.


E quando uma relação chega ao casamento, o que acontece com a paixão e o amor?

Nossa cultura pressup√Ķe que o casamento depende de paix√£o e amor.

Ideologicamente nossa cultura pressup√Ķe que o amor deva vir a partir do apaixonamento.

Ideologicamente vivemos a idéia de que o casamento exige o amor para que o relacionamento a dois ocorra.

Um relacionamento entre duas pessoas chega ao casamento mais provavelmente para sanar outras necessidades dos envolvidos do que um amor pré-existente ou uma paixão que se transforme em amor.

Então muitas vezes temos casamentos que já não carregam paixão e amor desde o início. Não pode haver uma pressuposição deste tipo pois não condiz com as realidades.

Muitas das vezes, os envolvidos num casal planejaram, desejaram que o casamento permitisse que tivessem algu√©m que deles cuidasse, permitisse satisfazer a necessidade de perten√ßa, ter filhos, relacionar-se socialmente e preenchesse os pap√©is sociais pr√©-estabelecidos. Nestas situa√ß√Ķes pode-se desenvolver amor como um elo mantenedor da satisfa√ß√£o das outras necessidades.

A paix√£o √© incongruente com a manuten√ß√£o de um casamento… mas muitas vezes acontece, pois ainda muitas pessoas pressup√Ķe que assim deva ser.

Mas o que é fundamental para manter um bom casamento?

O fundamental ser√° o casal estabelecer meios de comunica√ß√£o que permitam a satisfa√ß√£o das necessidades individuais de ambos envolvidos. Estas necessidades s√£o do cotidiano, s√£o emo√ß√Ķes associadas ao casamento e fora dele, mas baseados no relacionamento seguramente estabelecido.

O casamento tem uma existência embasada em como o cotidiano acontece e não no amor envolvido. Aliás estas são as bases históricas dos relacionamento humanos, embora atualmente e por todo o século XX tenhamos valorizado excessivamente o amor como a base dos relacionamento humanos.

Mas e o sexo, como entra nesta história toda?

O sexo é uma parte do casamento, uma parte das necessidades dos indivíduos envolvidos.

Não é a mais importante, mas é muito importante, e cada vez mais nos rumos da cultura ocidental.

O sexo n√£o √© priorit√°rio, nem √© fundamental para os casais. Pesquisas com classes m√©dias altas apontam o sexo como prioridade de quinta ou s√©tima import√Ęncia, sendo ultrapassado pela viagem √† Europa ou a troca anual do autom√≥vel.

Mas o sexo come√ßa o s√©culo XXI com a possibilidade de ser o novo mecanismo de comunica√ß√£o emocional e efetiva de um casal. Quanto mais se busca a sa√ļde sexual, mas se chega a esta possibilidade.

At√© hoje o sexo tem mais import√Ęncia na reprodu√ß√£o do que no bem estar de um casal…

Em nosso mundo atual, vemos muitos casamentos se dissolverem com facilidade, além de uma liberdade sexual nunca anteriormente vivenciada entre homens e mulheres. O que está acontecendo com os casamentos?

N√£o deve ser verdade de que hoje exista mais casamentos dissolvendo-se e uma liberdade sexual nunca antes vivenciada… se procurarmos ver momentos anteriores da hist√≥ria poderemos reconhecer outros momentos e lugares onde a liberdade sexual foi realmente liberdade comparada ao est√°gio atual da cultura brasileira. Na Roma antiga teremos muitos 0065emplos demonstrando estas quest√Ķes…

O que ocorre, antes de mais nada, é um momento ideológico quando estamos discutindo valores morais e tentando nos apegar a valores anteriores, do início do século XX na Europa, por exemplo.

Neste momento estamos tentando desenvolver novas formas de relacionamento conjugal, discutindo o casamento homossexual, novos formatos de fam√≠lia… buscando novos valores morais, os quais tendem a ser mais r√≠gidos e trazer esta sensa√ß√£o de que as fam√≠lias est√£o se dissolvendo mais rapidamente…

Talvez as pessoas estejam buscando desenvolver estas outras op√ß√Ķes, saindo de padr√Ķes anteriores que eram √ļteis para gera√ß√Ķes que tinham uma expectativa de vida abaixo dos 50 anos…

Quais s√£o os principais problemas de um casamento?

Desconhecerem os limites individuais e do casal, al√©m dos mecanismos que os colocaram juntos e os mant√©m, cometerem erros individuais que pressup√Ķe o outro participar de necessidades que n√£o s√£o as que tem, problemas de comunica√ß√£o das necessidades individuais e de um compromisso com futuro.

Mormente não conversarem sobre como restabelecer o contrato de relacionamento a dois a cada par de anos, o que os faz pressupor que o casamento deva existir até que a morte os separe. Em verdade, o fato de não consideraram as mudanças individuais e sociais, não será a morte que os separará, mas a vida que produzirá a separação.

Para finalizar, gostaríamos que pudessem nos falar algo sobre o que torna alguns casamentos melhores do que outros.

Um casamento será melhor que o outro na medida que o relacionamento satisfaz as necessidades dos dois indivíduos.

Como as necessidades mudam de ano para ano, reconhecer estas mudanças e planejarem novas estratégias de vida será necessário para que o casamento continue dando certo.

Assim o casal necessita de uma forma especial de comunicação, o que geralmente não acontece, pois o casamento é um projeto socialmente imposto e não desenvolvido pelos indivíduos.