Transtornos alimentares

Os segredos e as cegueiras em relação à bulimia e à anorexia

Numa sociedade em que o culto à magreza se impõe, poucos imaginam que uma boa adolescente excessivamente preocupada com a aparência possa estar emocionalmente doente. Assim, aqui tratamos sobre esses preocupantes distúrbios culturais e psíquicos.
A entrevistada é Ieda Zamel Dorfman, psicóloga e terapeuta de família e membro da Associação Gaúcha de Terapia Familiar (AGATEF).

Ieda foi uma das palestrantes da oficina Segredos e Cegueiras realizado no III Fórum Mundial, ocorrido em Porto Alegre (RS).
RAINHA- O que são transtornos alimentares?

IEDA- São constituídos basicamente pela bulimia nervosa, pelos transtornos do comer compulsivo e pela anorexia nervosa. Os pacientes com transtornos alimentares apresentam alguns traços em comum como baixa auto-estima, dificuldade nos processos de separação-individuação, insatisfação com o próprio corpo, conflitos com a sexualidade, obsessividade e dificuldade em distinguir e expressar emoções e sensações.
Costumam ser filhos obedientes e excessivamente dependentes dos pais. São exigentes e na escola são ótimos alunos.
RAINHA- Quais as principais características da anorexia e da bulimia nervosas?

IEDA- antes de tudo quero colocar que, em muitos casos, a presença de apenas alguns sinais já é motivo de preocupação.
Sobre a anorexia, a recusa de comer e a perda excessiva de peso costumam ser sinais de alerta; ocorre excesso de exercícios físicos; há interrupção da menstruação; isolamento social e dificuldade para o namoro e na vida sexual. Os anorexicos adoram cozinhar e servir os outros. Têm visão distorcida do próprio corpo, fingem que comem e escondem alimentos em armários, banheiros ou dentro de roupas.
Em relação à bulimia, pode coexistir com a anorexia. Ocorre uma ingestão de grande quantidade de alimento seguido de vômitos auto-induzidos. A aparência colabora para camuflar a doença e os vômitos e purgação são secretos. O peso geralmente é normal, apesar de ser considerado alto. O uso de laxante e diurético é comum, pois sente-se sujo por dentro e estufado. O tempo médio entre o aparecimento da doença e a procura média, é de cinco anos.
RAINHA- Há causas específicas que provocam esses transtornos?

IEDA- Sabemos que várias causas,de diferentes naturezas – biológicas, psicológicas e socioculturais- explicam a ocorrência dos distúrbios. Sabemos, também, que dietas
radicais podem sair do controle e virar doenças.

RAINHA- Alguns grupos apresentam maior incidência?


IEDA- Os transtornos alimentares são nove vezes mais comuns em mulheres do que em homens. A idade média para o início da anorexia nervosa é de dezesseis anos, com alguns dados sugerindo picos de ocorrência dos catorze aos dezoito anos.
O aparecimento da doença freqüentemente está associado com um acontecimento vital estressante. A bulimia nervosa começa um pouco mais tarde que a anorexia nervosa, ocorrendo no final da adolescência ou no início da idade adulta.
Antes, eram doenças de garotas de alto poder aquisitivo. Hoje, muitas delas são originárias de famílias carentes.

RAINHA- Quais as mensagens secretas transmitidas através desses comportamentos?


IEDA- Penso que anoréxicas e bulímicas passam, ao longo da vida, por diversas experiências de conflitos e sofrimentos psíquicos, seja em aceitar a se próprias e as suas necessidades básicas , seja em relação às expectativas de outras pessoas. Em decorrência usam, como uma forma de controle, uma doentia relação com a comida.

RAINHA- Os bulímicos ou anoréxicos percebem o problema e assumem ou há uma negação, um estado de cegueira?


IEDA- Tanto os bulimicos ou anorexicos costumam esconder a doença, pois não se consideram doentes. Há uma recusa em se aceitar doente. Ambos se parecem em dois aspectos cruciais: a existência de uma ”obsessão por comida e um medo quase incontrolável de engordar”.

RAINHA- As famílias costumam aceitar essas situações e encará-las ou tendem a mascará-las, minimiza-las ou esconde-las? Por que isso pode se tornar um segredo familiar?

IEDA- As famílias onde ocorrem esses distúrbios tendem a ser excessivamente aglutinadas, com dificuldade de diferenciação de seus membros. São famílias superprotetoras, o que provoca retardo no desenvolvimento da autonomia, da competência e na busca de interesses fora da segurança familiar. São famílias que negam as dificuldades ou conflitos existentes entre seus membros e, como conseqüência, têm dificuldade em ajuda-los a resolver seus problemas.
Os pais, normalmente, ignoram a atitude patológica de seus filhos que são percebidas como excentricidades. Apresentam características como superexigências, prezam o sucesso escolar e profissional de seus filhos. São famílias rígidas e resistentes a mudanças.

RAINHA- Qual a incidência de casos? São comuns hoje?


IEDA- Há estudos na Europa e nos EUA demonstrando que adolescentes entre catorze e vinte anos,70% sentiam-se gordos, 7% tinham anorexia nervosa e de 5 a 19% tinham bulimia nervosa.(Herzscovici, 1997). Essas doenças estão crescendo em todo o mundo de maneira alarmante, assumindo proporções epidêmicas.

RAINHA- Existe tratamento e como deve ocorrer? É apenas um tratamento físico ou exige outros acompanhamento?


IEDA- Como as causas são variadas, pensa-se que o melhor tratamento para essas doenças deva incluir clínicos, psiquiatras, psicólogos, nutricionistas, terapeutas familiares, de forma a se conseguir uma abordagem ampla do áciente e sua família.

RAINHA- Que recomendação podem ser feitas aos familiares que precisam conviver com essas doenças?

IEDA- Como o doente normalmente não se consideram doente, a família deve:
-entender e aceitar a doença e saber que ela pode ser tratada;
–    não culpar o familiar pela doença e acreditar no seu sofrimento;
–    ter disposição para o diálogo, compreensão e carinho.
–    identificar as dificuldades em lidar com as emoções, sentimentos e limites.
Esses podem ser caminhos na busca de uma nova estrutura familiar, construindo novas formas de convivência e inter-relacionamento.