Entrevista com Helena Centeno Hintz

 

Rainha: √Č comum a fam√≠lia considerar que os usu√°rios de drogas e/ou √°lcool est√£o sempre fora e nunca dentro do lar?


Helena Centeno Hintz: A fam√≠lia como um grupo de pessoas que, al√©m da uni√£o por la√ßos consang√ľ√≠neos ou por escolha, est√£o juntas por se amarem, tende a considerar e a desejar que seus membros n√£o tenham op√ß√Ķes que os possa prejudicar. Quando algu√©m resolve buscar para si uma alternativa, sabendo que n√£o ser√° aceita pela fam√≠lia, procura escond√™-la da mesma.
O uso de √°lcool ou outras drogas evidencia um drama familiar. Produz situa√ß√Ķes de viol√™ncia, fortes tens√Ķes emocionais, per√≠odos de muita ang√ļstia, ansiedade ou at√© mesmo morte. Assim, a constata√ß√£o de que um de seus membros seja usu√°rio de drogas e/ou √°lcool √© algo que se torna dif√≠cil para a fam√≠lia aceitar. A revela√ß√£o do uso √©, muitas vezes, provocada pela conduta at√≠pica que o usu√°rio passa a ter, por alguma manifesta√ß√£o de um quadro psiqui√°trico ou doen√ßa org√Ęnica, por algu√©m conhecido da fam√≠lia ou mesmo por alguma atitude do pr√≥prio usu√°rio que, n√£o suportando mais guardar segredo, deixa ind√≠cios da droga √† vista para que algu√©m da fam√≠lia encontre.

Rainha: Como a família estimula o uso desses entorpecentes?

Helena: O est√≠mulo ao uso de drogas pode ter seu in√≠cio dentro do pr√≥prio n√ļcleo familiar. Atualmente, muitas pessoas fazem uso cont√≠nuo e, freq√ľentemente, indiscriminado de medica√ß√£o, que nem sempre s√£o prescritos por m√©dicos. O jovem cresce, vendo os adultos buscarem al√≠vio de seus conflitos e dores nas p√≠lulas milagrosas.
Outra fonte de est√≠mulo s√£o algumas condutas aditivas que a fam√≠lia possui. O fato dos pais e/ou outros familiares fazerem uso seguido de bebidas alco√≥licas e, principalmente, com manifesta√ß√Ķes de muita alegria ou satisfa√ß√£o, proporciona a banaliza√ß√£o do perigo das drogas. Cria um significado de que a bebida alco√≥lica traz muito prazer, um bom astral, tornando-se o est√≠mulo necess√°rio que leva a pessoa a relaxar e esquecer os seus problemas. O tabagismo assim como o √°lcool, que s√£o drogas l√≠citas, t√™m um papel particular na vida daqueles que os utilizam. Podemos acrescentar aos anteriores o uso indiscriminado da cafe√≠na, comida e at√© mesmo o excesso de trabalho. O uso abusivo desses indica uma falta de controle ou limite, podendo levar ao desenvolvimento de um ambiente que induz ao uso de outras drogas – as il√≠citas – portanto s√£o modelos de condutas que devem ser reconsiderados ou inclusive ser evitados.

Rainha: Quais s√£o as drogas mais utilizadas e as que primeiramente s√£o consumidas?


Helena: Segundo o Centro Brasileiro de Informa√ß√Ķes sobre Drogas Psicotr√≥picas (Cebrid), que publicou em 2001 o 1¬ļ Levantamento Domiciliar sobre Uso de Drogas Psicotr√≥picas no Brasil, o √°lcool e tabaco s√£o as duas subst√Ęncias mais usadas em nossa sociedade. A maconha foi citada como mais utilizada logo ap√≥s essas duas primeiras. A seguir, v√™m os solventes e os anorex√≠genos (moderadores de apetite) que s√£o drogas de venda livre.

Segue os benzodiazepínicos ou calmantes e logo após a cocaína.
H√° outras drogas utilizadas, cujo consumo est√° crescendo em nosso meio, tais como o ecstasy e o crack, ambas causando conseq√ľ√™ncias graves ao ser humano.

Rainha: Quais são as características pessoais e familiares mais encontradas nos usuários?


Helena: Ao longo dos tempos, a fam√≠lia tem passado por muitas modifica√ß√Ķes em seus padr√Ķes de comportamento, levando a mudan√ßas em sua estrutura familiar. Algumas mudan√ßas foram muito renovadoras, mas outras contribu√≠ram para um isolamento do n√ļcleo familiar que, junto a uma ideologia de consumo – a busca pelo prazer imediato ‚Äď deram origem a desajustes dentre os quais o uso abusivo de drogas.
Sendo o tema sobre o uso de √°lcool e drogas t√£o importante na vida do indiv√≠duo e da fam√≠lia pelas conseq√ľ√™ncias que acarreta a todos, tem-se realizado pesquisas e estudos que apontam algumas caracter√≠sticas de fam√≠lias que possuem usu√°rios de drogas. √Č importante ressaltar que nem todas as fam√≠lias de aditos s√£o disfuncionais ou apresentam todas as caracter√≠sticas citadas abaixo.
Nas famílias com usuários masculinos podemos encontrar uma mãe muito apegada ao filho, superprotetora, permissiva, dando a ele a posição de um filho favorecido. A mãe considera que o filho tem ótimas atitudes, é bondoso e, até mesmo dócil, fácil de educar.
O pai pode se mostrar distante, desligado ou ausente. Freq√ľentemente, as rela√ß√Ķes pai-filho s√£o descritas pelo usu√°rio como negativas, com uma disciplina rude e, por vezes, incoerente. Muitos pais, nessa configura√ß√£o familiar, bebem al√©m do estritamente social. Grande n√ļmero desses pais apresenta-se ou como um homem autorit√°rio e violento, por√©m dependente, facilmente controlado pela m√£e, ou como um homem distante que est√° claramente em segundo lugar depois da m√£e, no que se refere ao poder dentro da fam√≠lia.

A mãe predomina na liderança da família, demonstrando conflitos e ambivalência quanto ao seu papel na família.
Os irm√£os do adito costumam ter uma rela√ß√£o mais positiva com o pai. Geralmente, o adito reproduz em seu casamento a din√Ęmica da fam√≠lia de origem, casando com uma mulher dominadora e ambivalente. Essas fam√≠lias t√™m dificuldade de negociar trocas e de darem limites necess√°rios aos filhos.
Nas fam√≠lias de usu√°rias femininas encontramos um ambiente em que as meninas, seguidamente est√£o em aberta competi√ß√£o com suas m√£es. Consideram as m√£es como superprotetoras e autorit√°rias e os pais costumam caracterizar-se como indulgentes, sexualmente agressivos e freq√ľentemente alco√≥licos.
Nessas fam√≠lias, a transi√ß√£o do adolescente para a vida adulta pode ser dif√≠cil, pois o processo de separa√ß√£o-individua√ß√£o n√£o √© tranq√ľilo e est√°vel. √Č bastante comum encontrarmos que o conflito gerado pelo membro adito resulte ser a √ļnica forma de poder unir os pais e a fam√≠lia para buscar solu√ß√Ķes para algum problema existente entre os pais ou dentro da fam√≠lia.

Rainha: Quais as etapas de reação familiar sobre a percepção que um parente é drogadito?


Helena: A fam√≠lia, inicialmente, passa por um per√≠odo de desconhecimento do uso de drogas do seu familiar. Ap√≥s a constata√ß√£o do uso atrav√©s de algum sinal emitido, quer pelo pr√≥prio usu√°rio ou outra pessoa, pode haver um momento de paralisa√ß√£o e n√£o saber o que fazer, como agir. Parece que o que fizer ir√° acentuar a busca pela droga. √Č o in√≠cio do drama familiar.
No momento seguinte, a rea√ß√£o poder√° ser: ou buscar apoio em outro familiar para conversar com o adito, ou ir falar diretamente com ele. √Č oportuno que, al√©m de conversar com o adito, forme-se uma rede de apoio dentro da pr√≥pria fam√≠lia, no intuito de ajud√°-lo, pois a recupera√ß√£o praticamente s√≥ √© poss√≠vel se a fam√≠lia estiver envolvida no processo.
√Č necess√°rio ressaltar a import√Ęncia da fam√≠lia buscar tratamento adequado para o adito e para a pr√≥pria fam√≠lia. Os membros da fam√≠lia constituem-se tamb√©m como v√≠timas da depend√™ncia, junto com o pr√≥prio adito. A ocorr√™ncia de conflitos, agress√Ķes, priva√ß√Ķes, desespero vividos pelos familiares, decorrentes do conv√≠vio com a droga, complicam as rela√ß√Ķes familiares gerando conseq√ľ√™ncias dolorosas para todos.

Rainha: Por que, em muitos casos, o uso de drogas ou √°lcool torna-se segredo ou cegueira familiar?

Helena: Encontramos nas pessoas um sentido de lealdade familiar muito forte, traduzida, freq√ľentemente, no desejo de n√£o incomodar os pais ou n√£o querer que os pais se desiludam consigo. Dessa forma, determinados comportamentos v√£o se tornando obscuros, podendo provocar a exist√™ncia de um segredo familiar.
Mitos, cren√ßas, valores, preconceitos prestam-se para a forma√ß√£o de segredos familiares e s√£o transmiss√≠veis atrav√©s de gera√ß√Ķes. O abuso de drogas ou √°lcool pode permanecer em segredo no momento inicial do uso. Logo essa situa√ß√£o evidencia-se, tornando-se aberta para a fam√≠lia. O que se torna um segredo √© o que o uso da droga ou do √°lcool est√° querendo esconder.
Há dois níveis de segredos, envolvendo o abuso de drogas e álcool.

O primeiro é a existência prévia de um segredo familiar com uma grande dificuldade de manejo por parte da família. Essa dificuldade pode favorecer o aparecimento do abuso de drogas e álcool como uma forma de suportar o não dito.

O segundo é manter em segredo o próprio uso abusivo do álcool e drogas. Em ambos, o segredo pode ter diferentes significados: de proteção que tanto pode ser dos pais para com o filho, como do filho para com os pais. Pais não revelam determinado segredo, pois entendem que o filho poderá sofrer ao conhecê-lo.

O filho pode ser um usu√°rio para distrair os pais, protegendo-os de falarem sobre segredos insuport√°veis, mantendo o interesse das pessoas em algo diferente.
O outro significado pode ser o sentimento de traição. Os pais podem sentir-se traídos pelo filho, porque este não se sentiu à vontade para se abrir com eles. O filho também pode se sentir traído pelos pais que não lhe revelaram determinado segredo, permitindo que o ambiente familiar ficasse tenso ou conflituoso, induzindo-o ao uso de drogas.

Rainha: Como o segredo ou a cegueira podem prejudicar a família e o usuário?


Helena: O fato do uso de drogas ou álcool, por algum membro da família, tornar-se um segredo familiar, dificulta que a família ou o usuário procure ajude terapêutica. Dessa forma, determinados comportamentos prejudiciais podem ser mantidos em segredo pela pessoa ou por seus familiares por vergonha ou por estigmatização (medo ao rótulo) desses comportamentos estranhos. O que não é dito pode se tornar muito mais grave do que o é na realidade. A manutenção do segredo pode tornar a família cega em perceber problemas ou conflitos graves, que deveriam ser trabalhados e elaborados.
Ansiedade e culpa decorrem da manutenção de segredos e prejudicam seriamente a relação familiar.

Rainha: Externar e debater esse tema pode auxiliar na cura?


Helena: √Č fundamental estabelecer um di√°logo entre os familiares, mas que esse di√°logo n√£o se centre apenas sobre drogas e sim sobre outros assuntos que tamb√©m sejam interessantes.
Deve haver uma estimula√ß√£o constante na valoriza√ß√£o da sa√ļde, nas possibilidades que o esporte oferece como fonte de prazer, nas rela√ß√Ķes humanas como forma de promover um enriquecimento pessoal.

Rainha: A cura pode provocar a desuni√£o familiar?


Helena: Acredita-se que a cura de algu√©m que n√£o estava bem, que passou por muitos sofrimentos, por dores f√≠sicas e emocionais s√≥ poder√° causar alegria e satisfa√ß√£o a quem ama e passou pelo terror de perder o ente amado. Por√©m temos que ter presente todo o sofrimento que os familiares passaram na busca por tratamentos, nas frustra√ß√Ķes sentidas ao presenciar reca√≠das. Assim, quando o adito alcan√ßar sua cura, o sofrimento que a fam√≠lia passou foi imenso e poder√° estar debilitada, n√£o suportando mudan√ßas que ser√£o necess√°rias para a manuten√ß√£o da absten√ß√£o. Devido a isso, √© fundamental que a fam√≠lia permita se tratar, preparando-se para a fase de absten√ß√£o e que no final possa realmente permanecer unida desfrutando do direito de ser feliz.

Rainha: Quais os valores necessários para a reunificação familiar?


Helena: Primeiramente, é necessário muito amor e consideração pelo outro, promovendo um envolvimento saudável entre os familiares com adequado respeito pelos papéis exercidos incluindo um estabelecimento eficaz de regras de conduta. Sentir-se pertencente a uma estrutura familiar integrada, fortalece os valores pessoais e a capacidade de sentir-se responsável por si e pelos outros, podendo amar e ser amado.