Autoria: Leila Sigal Suslik –¬†¬†Assistente Social, Terapeuta de Fam√≠lia e Casal. Prof¬™ convidada do Curso de Forma√ß√£o em Terapia de Casal e Fam√≠lia na Cl√≠nica de Psicoterapia ‚Äď CLIP. Secret√°ria do Conselho Deliberativo e Cient√≠fico da Associa√ß√£o Brasileira de Terapia Familiar -ABRATEF ‚Äď Gest√£o 2006-2008.

Resumo

O presente trabalho √© um relato vivencial que descreve um processo de Terapia Familiar realizado com dois grupos de adolescentes abrigados no sistema de Casa Lar e seus Pais Sociais. O atendimento foi realizado durante dois anos no local de abrigagem, sendo o primeiro em co-terapia e o segundo com uma terapeuta trabalhando em cada grupo. Por ser uma experi√™ncia √ļnica, procurou-se apresentar a forma como esse trabalho foi sendo desenvolvido enfocando algumas cenas que constru√≠ram resson√Ęncias nas terapeutas e como essa viv√™ncia foi utilizada para ampliar o espa√ßo de conversa√ß√£o do grupo.

Palavras-chave:¬†abrigagem, terapia familiar, conversa√ß√£o, resson√Ęncias

 

Family Therapy in Foster CareAbstract

 

The goal of this work is to describe a family therapy process with two groups of teenagers in foster care and their social parents. The therapy lasted for two years and took place at the foster house. The first year consisted of a co-therapy process, and the second followed with one therapist for each group. As a unique experience, this paper is a personal narrative that focuses on unique and specific scenes that generated enough resonance in both therapists. It also describes how those scenes were used to expand the group conversational space.

Keywords: fostering, family therapy, conversation, resonance 

 

 

 

 

 

Introdução

O presente trabalho visa a descrever um processo de Terapia Familiar com adolescentes e Pais Sociais em Casa Lar. Foi desenvolvido como parte da primeira experi√™ncia de implanta√ß√£o de Casas Lar no munic√≠pio de Porto Alegre, a partir do conveniamento com quatro ONGs. Atrav√©s dessas parcerias, foram acolhidas 30 crian√ßas e adolescentes, cujos v√≠nculos familiares estavam rompidos e sem qualquer possibilidade de retorno √† fam√≠lia (em raz√£o de maus tratos, abuso sexual, abandono ou neglig√™ncia).Para iniciar, quero situar o meu contexto de trabalho, para que se saiba e se conhe√ßa o lugar a partir do qual falo. Penso que o que me define profissionalmente √© ser Assistente Social h√° 36 anos. Tenho 22 anos de trabalho na √°rea da sa√ļde mental em n√≠vel de interna√ß√£o e ambulatorial, e sou Terapeuta de Fam√≠lia e Casal h√° 26 anos. Minha pr√°tica transita em contextos diversos, o que significa ter como clientes pessoas pertencentes a uma multiplicidade de grupos com valores, cren√ßas e costumes constru√≠dos em suas fam√≠lias, grupos, comunidades e sociedade a que pertencem e que constituem as lentes culturais com que cada qual v√™ o mundo, o outro e a si mesmo.

 

Abrigagem Modalidade Casa Lar

 

O Programa de Abrigagem Modalidade Casa Lar1 (FASC) possibilita o atendimento a crian√ßas e adolescentes que necessitam da medida de prote√ß√£o. √Č utilizado como √ļltimo recurso, visto que tanto o retorno √† conviv√™ncia familiar e comunit√°ria a m√©dio, curto ou longo prazo, quanto a coloca√ß√£o em fam√≠lia substituta n√£o s√£o poss√≠veis. Os motivos que levam a esta situa√ß√£o s√£o diversos. De acordo com o Estatuto da Crian√ßa e do Adolescente (1990) a abrigagem √© uma medida provis√≥ria, utilizada como transi√ß√£o para a coloca√ß√£o em fam√≠lia substituta, n√£o implicando a priva√ß√£o de liberdade.Para que se efetive a abrigagem em Casa Lar, faz-se necess√°rio que tenham sido esgotadas todas as possibilidades de retorno da crian√ßa ou adolescente ao conv√≠vio familiar. Tamb√©m √© avaliada a possibilidade de coloca√ß√£o imediata em fam√≠lia substituta atrav√©s da ado√ß√£o, guarda ou tutela. Somente depois de ter resutado improdutivas as tentativas citadas √© que se deve indicar a transfer√™ncia para o Programa. Ainda deve-se avaliar se tal transfer√™ncia ser√° adequada e ben√©fica para a crian√ßa ou adolescente que usufruir√° do abrigo. As crian√ßas e adolescentes devem ser oriundas da rede de abrigagem do Munic√≠pio e possuir situa√ß√£o do poder familiar definida. Situa√ß√£o de Poder Familiar definido significa que os pais ou respons√°veis pela crian√ßa ou adolescente tiveram suspenso ou destitu√≠do seu poder familiar ou este √© √≥rf√£o, n√£o possuindo respons√°veis por seus cuidados. Esta avalia√ß√£o deve ser executada pelo abrigo de origem e pelo Juizado da Inf√Ęncia e Juventude, √≥rg√£o respons√°vel pelas tratativas legais e processuais (FASC).O Programa de Abrigagem Modalidade Casa Lar √© desenvolvido em um n√ļcleo familiar ou com Pais Sociais, que moram no Lar, em regime de exclusividade com tarefas ¬†administrativas e no cuidado das crian√ßas e adolescentes, localizado na comunidade. Nessas institui√ß√Ķes s√£o abrigados, individualmente ou em grupo de irm√£os, at√© o m√°ximo de oito crian√ßas ou adolescentes. O prazo de perman√™ncia na Casa Lar √© indefinido devendo a crian√ßa ou adolescente ser preparada para a vida adulta e para a sa√≠da do espa√ßo protetivo quando completar 18 anos (FASC, 2005).

 

Convite para a realização de terapia familiar na Casa Lar

 

O contato inicial foi feito pela Assistente Social coordenadora do Programa de Abrigagem Casa Lar no ano de 2000 ao N√ļcleo das Rela√ß√Ķes Familiares (NURF). Segundo ela, os coordenadores de duas Casas Lares, Marcelino (35 anos) e Maria Clara (30 anos), solicitaram atendimento aos abrigados. Corroborando com essa solicita√ß√£o, o ECA2 prev√™ como uma obriga√ß√£o das institui√ß√Ķes de abrigagem, no artigo 94 par√°grafo IX, oferecer cuidados psicol√≥gicos necess√°rios √†s crian√ßas e aos adolescentes. A diferen√ßa √© que nesse momento se estava buscando ajuda para o grupo dos adolescentes abrigados. Era um grupo de sete adolescentes masculinos residentes em uma sociedade religiosa e outro de sete adolescentes femininas, residentes em outra institui√ß√£o com a mesma identidade religiosa. Ambas as institui√ß√Ķes se localizavam na zona sul de Porto Alegre. Na avalia√ß√£o da coordenadora, a abordagem da Terapia de Fam√≠lia seria mais adequada e por isso estava entrando em contato com o NURF.

 

Organização do trabalho e da equipe

 

Em um primeiro momento, Ana Ibraima Sim√Ķes da Cunha, minha amiga e colega, e eu tivemos uma reuni√£o com a Coordenadora do Programa e com os Pais Sociais, com o objetivo de esclarecer o pedido de ajuda. Na ocasi√£o, foi senso comum de todo o grupo que a Casa Lar apresenta uma configura√ß√£o familiar, representada pela figura do Pai Social, como cuidador dos adolescentes e, como decorr√™ncia deste papel, as facilidades e dificuldades inerentes ao seu desempenho. Essa discuss√£o confirmou a possibilidade de realiza√ß√£o de um tratamento familiar nesse sistema de fam√≠lia substituta.Como parte do segundo momento do trabalho, foram combinados encontros nas pr√≥prias Casas Lares, com a participa√ß√£o dos adolescentes, dos pais sociais e de duas terapeutas. O primeiro encontro com cada grupo teve o objetivo de externalizar, seguindo a proposi√ß√£o de Morgan3, que enfatiza que as conversa√ß√Ķes externalizadoras estabelecem um contexto no qual as pessoas experienciam elas mesmas como separadas do problema; as dificuldades percebidas no cotidiano, por parte dos pais sociais e por parte dos adolescentes e planejar como o espa√ßo de terapia poderia ser √ļtil no processo de desenvolvimento de cada grupo. Encontros nesse formato foram realizados por um ano, uma vez por semana, com dura√ß√£o de uma hora. No segundo ano, cada terapeuta assumiu um grupo, e seguiu o trabalho com os mesmos objetivos. O processo de troca de experi√™ncias entre as duas co-terapeutas, ap√≥s cada reuni√£o, continuou do in√≠cio at√© o final do trabalho.Durante as reuni√Ķes houve uma preocupa√ß√£o em criar um contexto de colabora√ß√£o no qual adolescente, pais sociais e co-terapeutas tivessem a oportunidade de construir novas formas de compreender a realidade na qual estavam inseridos. O texto que segue descreve algumas experi√™ncias vivenciadas durante esse projeto e que tiveram resson√Ęncia significativa para mim. No entendimento de Elka√Įm4‚Äúa resson√Ęncia n√£o √© um fato objetivo, n√£o se trata de uma verdade velada que devemos fazer surgir atrav√©s de um ponto em comum dos diferentes sistemas. Ela nasce na constru√ß√£o m√ļtua do real que se opera entre aquele que nomeia e o contexto no qual ele se descobre nomeando-a‚ÄĚ (p.171).

 

A preparação da equipe

 

O primeiro encontro com os grupos foi repleto de expectativas. Entre as in√ļmeras quest√Ķes que me inquietavam, destaco:

1) Como ser√° o local do encontro?

2) Vou me sentir confortável em atender em um contexto distinto do consultório?

3) Como serei recebida pelos grupos? E pelos pais sociais?

4) Ser√° que os grupos de adolescentes participaram do pedido de ajuda?

√Ä medida que constru√≠a minhas expectativas, pensava que o grupo tamb√©m estaria construindo as suas expectativas para o encontro. Comecei a refletir e imaginar qual seria minha proximidade com as pessoas com quem iria me encontrar. Cheguei a pensar: se levantar muitas hip√≥teses, ser√° que n√£o me afastarei deles? Na tentativa de encontrar respostas para as minhas quest√Ķes, optei por viver intensamente cada momento, numa atitude de curiosidade em rela√ß√£o as suas hist√≥rias e necessidades. O caminho escolhido foi o de estabelecer uma conversa√ß√£o criando narrativas, nas quais, cada um poderia se sentir como leg√≠timo respons√°vel e autor da sua pr√≥pria est√≥ria.Segundo Grandesso5 considera que nos constitu√≠mos como sujeitos na linguagem. O mundo em que vivemos √©, portanto, um mundo ling√ľ√≠stico. O conceito de linguagem √© aqui assumido como um meio universal da experi√™ncia, com fun√ß√£o geral e n√£o para dar conta de descrever um mundo previamente existente. Refor√ßa-se, assim, a id√©ia de iniciar o primeiro encontro com o objetivo de conversar sobre as expectativas de cada um e refletir sobre como poder√≠a ser √ļtil o acompanhamento e o desenvolvimento do trabalho solicitado.As palavras – id√©ia, descri√ß√£o, explica√ß√£o, significado e compreens√£o – s√£o usadas, neste trabalho, de acordo com o entendimento de Andersen6 ‚ÄúId√©ia como o vislumbrar de alguma coisa; uma descri√ß√£o como uma imagem que pode estar em movimento, contendo as qualidades correspondentes aos sentidos de ver, ouvir, cheirar, provar, tocar e todas as sensa√ß√Ķes que v√™m de dentro do corpo; explica√ß√£o √© a forma como a imagem pode ser compreendida; um significado inclui descri√ß√£o e explica√ß√£o, √© um componente pessoal que a define; e a compreens√£o se aproxima do significado‚ÄĚ (p.38). A partir das id√©ias e reflex√Ķes, compartilho com as id√©ias de Guanaes7 quando refere que a terapia de grupo pode ser pensada como recurso conversacional f√©rtil para emerg√™ncia de descri√ß√Ķes alternativas. √Č um contexto √ļtil para explorar novas vers√Ķes de si, sentidos e possibilidades de vida, por meio do di√°logo, uma vez que o grupo cria oportunidade para encontro de m√ļltiplas e diferentes vozes. Bakhtin defendeu a impossibilidade de uma forma√ß√£o individual sem a participa√ß√£o de outros, apontando para o papel que estes ocupam na constru√ß√£o e delimita√ß√£o de espa√ßos pessoais de atua√ß√£o no mundo (p√°g. 90-91). Isto d√°¬†¬†¬† ¬†visibilidade e tr√Ęnsito √†s incertezas, com a subjetividade e as multi-vers√Ķes que permeiam a conversa√ß√£o. A √≥tica do Construcionismo Social (Gergen8) enfatiza a import√Ęncia do processo ling√ľ√≠stico e a conversa√ß√£o dial√≥gica. Nesta proposta est√£o inseridas as rela√ß√Ķes horizontais, a posi√ß√£o de n√£o saber, na qual o terapeuta n√£o √© o especialista, e conferem uma posi√ß√£o de conforto ao terapeuta. Gergen enfatiza que o terapeuta n√£o √© exterior ao seu entorno social e que ampliar as estrat√©gias de atendimento de fam√≠lia s√£o resultado de compreender a implica√ß√£o pol√≠tica e responsabilidade social do processo terap√™utico.

 

O primeiro encontro

 

O trabalho na Casa Lar dos adolescentes masculinos iniciou com a apresenta√ß√£o dos participantes: duas terapeutas (Ana Ibraima e eu), dois Pais Sociais (Marcelino, 35 anos; Maria Clara, 30 anos) e sete adolescentes (Paulo, 17 anos; C√°ssio, 15 anos; Ricardo, 14 anos; Leandro, 16 anos; Pedro, 13 anos; Jorge, 13 anos; e Luiz, 12 anos). Logo ap√≥s, perguntei sobre as id√©ias que tinham sobre o nosso encontro e como se poderia utilizar aquele espa√ßo. As conversas foram iniciadas pelos Pais Sociais, com a narrativa das in√ļmeras dificuldades sentidas no conv√≠vio com os jovens. Eles apresentaram as situa√ß√Ķes nas quais n√£o sabiam como agir com o grupo. Citaram:

1) Roubos;

2) Fugas;

3) Uso de drogas;

4) Brigas e agress√Ķes no grupo; e

5) Falta de cuidados pessoais e com a casa.

A partir da fala dos Pais Sociais, solicitei que cada adolescente falasse o que estavam pensando enquanto os ouviam. As respostas dos adolescentes foram evasivas, desprovidas de interesse, parecendo que n√£o tinham participado da decis√£o da procura de ajuda. Manifestei curiosidade em conhecer a realidade de viver em uma casa com sete adolescentes e seus Pais Sociais. Meu interesse estava focalizado em conhecer a constru√ß√£o da realidade que cada adolescente e Pai Social tinham deste contexto. Em um primeiro momento, percebi uma troca de olhares no grupo. Os adolescentes apresentavam-se assustados, intimidados e desconfiados para iniciar uma conversa√ß√£o. Houve um sil√™ncio e minha posi√ß√£o de curiosidade aumentou.O grupo referiu, em consenso, a concord√Ęncia dos cinco problemas destacados pelos Pais Sociais. Salientaram que cada um sabe quem rouba, no entanto, este tema n√£o pode ser aberto, tendo em vista, o sentimento de medo das amea√ßas de agress√£o f√≠sica que permeia no grupo. Um dos componentes do grupo, Paulo, diz -‚Äú√Č a lei do mais forte‚ÄĚ.Um dos Pais Sociais, referiu que suas id√©ias sobre o roubo pode estar relacionada com as rela√ß√Ķes de poder, isto √©, existem ‚Äúalguns protetores dos outros, e que este papel d√° o direito de roubar‚ÄĚ. Neste momento, pensei que o sistema estava organizado como um agrupamento de pessoas com id√©ias comuns e que, enquanto mantivessem estas id√©ias com interesse comum, a organiza√ß√£o prevaleceria.Percebi, assim, que estava diante de uma ‚Äúabertura‚ÄĚ, que na compreens√£o de Andersen‚Äú√© uma express√£o do sistema significativo, podendo ocorrer de muitas formas: como uma id√©ia, uma palavra chave, um tema ou uma amostra de comportamento anal√≥gico. Qualquer que seja sua forma, funciona como uma abertura para a maneira que uma determinada fam√≠lia organiza seu padr√£o de pensamento, seus comportamentos e a combina√ß√£o de significados que representam coletivamente‚ÄĚ (p.61). A palavra-chave roubo surgiu como um termo investido de forte significado para o grupo. Apesar da queixa estar dirigida a uma ou duas pessoas problem√°ticas, esta abertura oferece ramifica√ß√Ķes para todo o sistema. Percebi esta abertura como um convite para prosseguir o di√°logo.Considerei expor uma pergunta: ‚ÄúQuem pode e gostaria de falar a respeito do roubo?‚ÄĚ Minha id√©ia estava sendo constru√≠da na dire√ß√£o de ouvir a descri√ß√£o e a compreens√£o de cada um sobre este fen√īmeno, isto √©, conhecer como cada um cria sua vers√£o da situa√ß√£o. √Ä medida em que nosso di√°logo se ampliava, formou-se um contexto de diversidade, com vers√Ķes desvinculadas do certo ou errado. Tinha presente que a minha tarefa era a de empenhar-me com o objetivo de compreender como cada um criava suas descri√ß√Ķes e explica√ß√Ķes.Em seguida, convidei o grupo, para uma conversa, no sentido de debater a possibilidade de outras descri√ß√Ķes ainda n√£o percebidas e, talvez, outras explica√ß√Ķes ainda n√£o pensadas. De certo modo, estava convidando para se unirem a mim e trocarmos id√©ias, tendo em mente que sempre existe uma coisa que n√£o foi percebida e algo ainda n√£o pensado nos processos da vida. Fui criando possibilidades para o grupo come√ßar a fazer novas associa√ß√Ķes, tais como, incluir os termos de respeito e confian√ßa.As palavras respeito e confian√ßa expandiram a discuss√£o para outros problemas referidos, fazendo emergir o tema que estava movendo o comportamento anal√≥gico ‚Äď a viol√™ncia. Segui o processo de busca de significados da palavra ‚Äúviol√™ncia‚ÄĚ para cada um em seu cotidiano: na casa, com o grupo, com os Pais Sociais, na escola, nos cursos profissionalizantes, na rua, na fam√≠lia e comigo. Essa abertura possibilitou uma concentra√ß√£o nos contextos relacionais dos pais sociais e dos adolescentes, explorando significados pragm√°ticos dos discursos. Os conflitos, portanto, deixaram de ser considerados problemas e passaram a ser vistos como constru√ß√Ķes concorrentes que permeavam a forma como o grupo compreendia a realidade.

 

Construindo resson√Ęncias: viv√™ncia do medo e sua rela√ß√£o com a viol√™ncia

 

Citarei uma outra cena vivida por mim, que senti e signifiquei como viol√™ncia. Os atendimentos eram realizados √† noite. Meu carro ficava no estacionamento da escola em frente da casa, do outro lado da estrada. A casa ficava num recuo com uma dist√Ęncia regular da estrada. Na frente, havia um campo gramado e cercado por arbustos. O acesso √† casa era atrav√©s de um corredor estreito ladeado p√īr arbustos, neste campo.Quando entrei no corredor tive a sensa√ß√£o de que havia algu√©m escondido. Falei para a co-terapeuta que respondeu com a pergunta: Ser√°? Respondi: Quem sabe √© s√≥ sensa√ß√£o? Quando passei pelos arbustos ouvi um grito e reagi tamb√©m gritando e me segurando na co-terapeuta. Eram quatro rapazes que sa√≠ram dos arbustos, come√ßaram a rir, e perguntaram se n√≥s nos assustamos. N√£o consegui responder. Bati na porta da casa e entrei. A primeira id√©ia que surgiu foi de termos passado por uma situa√ß√£o de viol√™ncia.Neste encontro, iniciei com a descri√ß√£o de meus sentimentos de medo qualificando como violenta as atitudes dos jovens. O coment√°rio dos adolescentes foi: Isto √© viol√™ncia? Foi s√≥ uma brincadeira! Voc√™s n√£o viram nada e n√£o sabem o que √© viol√™ncia!O tema da viol√™ncia foi uma abertura que possibilitou ao grupo, aos Pais Sociais, √† co-terapeuta e a mim viver uma experi√™ncia compartilhada. Nesta, aparece uma multiplicidade de vers√Ķes e significados da viol√™ncia para cada um de n√≥s e como as experi√™ncias vividas v√£o modelando os processos de rela√ß√£o. A partir da√≠ criou-se entre todos os participantes uma atmosfera de confian√ßa e respeito, que permitiu que cada um se sentisse confort√°vel para descrever sua est√≥ria de vida pessoal.Inicialmente, a posi√ß√£o de escuta do grupo, enquanto ouvia as est√≥rias de vida eram de risos e coment√°rios desqualificantes. Para mim, os temas respeito, confian√ßa e viol√™ncia estavam contraditoriamente impl√≠citos na intera√ß√£o. A explica√ß√£o que tive, por parte dos adolescentes, quanto a esta intera√ß√£o desqualificante, √© que fazia parte do modelo aprendido com suas fam√≠lias de origem. Pensei em ampliar o repert√≥rio aprendido, pontuando a intera√ß√£o desqualificante e ampliando-a. Levei-os a contatar e transitar nos sentimentos despertados. Cada um descreveu os sentimentos de desrespeito e baixa auto-estima, com certo constrangimento, fazendo conex√Ķes da intera√ß√£o no grupo com as representa√ß√Ķes, como um espelho ou reflexo da realidade de suas pr√≥prias fam√≠lias.Desta forma, cada jovem e cada Pai Social foi tomando consci√™ncia das in√ļmeras rela√ß√Ķes que auxiliam a compor a identidade de cada um. Essa forma de propor o desenvolvimento terap√™utico possibilitou que o grupo co-constru√≠sse a sua identidade como grupo de interrela√ß√Ķes. Ao mesmo tempo, possibilitou que cada um ampliasse a forma de descrever a si mesmo e ao outro. Novamente, essas id√©ias seguem as orienta√ß√Ķes de Gergen quanto a ‚Äúmultiplicidades narrativas‚ÄĚ.

 

Avaliando o processo

 

Tive a sensa√ß√£o de que esta experi√™ncia foi incomum e possibilitou pensar em projetos futuros, nos quais os dif√≠ceis caminhos do abandono, perdas, abuso e maus tratos podem ser trabalhados para n√£o mais serem determinantes nas vidas desses adolescentes. Ficou lan√ßada a semente de que cada um tem a capacidade de buscar outros caminhos, a partir do momento em que reconstru√≠mos significados e constru√≠mos novas leituras para suas vidas. Algo abalou os significados institu√≠dos pelos quais organizamos o mundo.Decorrido um ano do t√©rmino do trabalho, realizei uma visita √†s Casas Lares para conversar com o grupo que ainda estava abrigado. Tinha o objetivo de saber como eles estavam e o efeito da experi√™ncia nas suas vidas. Na ocasi√£o, encontrei-me com o grupo das adolescentes femininas e somente um adolescente masculino ainda estava na casa. Foi solicitada uma resposta escrita √† pergunta: Em que foi √ļtil, na tua vida, o trabalho que realizamos nestes dois anos? Eis as avalia√ß√Ķes apresentadas pelos participantes:¬†‚ÄúEu pessoalmente achei seu trabalho muito, super construtivo e eu mudei muito de antes para agora gra√ßas ao seu trabalho.‚Ä̬†(Clara, 13 anos)‚ÄúComo vai, tudo bem? Por aqui est√° tudo √≥timo! Gostaria de lhe dizer o quanto foi importante para mim nossos momentos de terapia, pois ali aprendi a lidar com as pessoas, aprendi a ver o mundo de forma real e n√£o em fantasias como antes. Agora sei tamb√©m entender meus sentimentos, pois sei que n√£o sou perfeita. E quem √©? Entendo todas as minhas d√ļvidas e atitudes e isso j√° √© um grande passo em minha vida!‚ÄĚ(Mariana, 15 anos)‚ÄúBom, nos primeiros dias eu n√£o gostei achei um xarope, mas depois eu comecei a me dar conta que aquelas reuni√Ķes estavam me fazendo bem. Agora eu estou conseguindo me expressar, falar o que eu gosto e o que eu n√£o gosto, pois aprendi tudo isso gra√ßas a sua ajuda. Te digo uma coisa: valeu por tudo isso mesmo e gostei muito do atendimento.‚Ä̬†(Maria, 16 anos)‚ÄúMe ajudou em tudo, no trabalho, na rua com os amigos. Antes eu falava o que eu bem queria, agora eu me controlo e assumo o meu erro, mas quero que o outro assuma tamb√©m.‚Ä̬†(C√°ssio, 15 anos)‚ÄúGostei do tempo que esteve conosco, me ajudou muito nesse tempo.‚Ä̬†(Elza, 12 anos)‚ÄúCom carinho, te deixo um abra√ßo. Adorei ter participado das reuni√Ķes. Cresci muito e vi que era poss√≠vel eu n√£o ter medo de tudo o que est√° para acontecer. Pelo pouco que tive junto no grupo, percebi que crescemos de l√° para c√°. Hoje estamos mais adultas crescemos e √© agora que come√ßamos a ir em busca de novos horizontes e novas amizades. Aprendi com o tempo a lutar pelo meu futuro e pelo que desejo. Mas ainda fica um ponto de interroga√ß√£o: Ser√° que vou conseguir lutar por tudo aquilo que desejo? Hoje estou com 17 anos e durante esses anos todos aprendi muito pouco, e tamb√©m sei que nem tudo a gente aprende. Como minha av√≥ falava: N√≥s morremos e n√£o sabemos quase tudo. Vejo que minha luta nunca vai ser em v√£o, vou lutar com f√© e esperan√ßa de que minha vida seja repleta de alegria e cada vez mais eu possa entender a realidade. Adorei ter te conhecido. Um grande abra√ßo.‚Ä̬†(Karem, 17 anos).

 

Sentimentos despertados em resson√Ęncia

 

A experiência de estar com o grupo compartilhando raivas, descasos e desinteresse com o trabalho proposto, me possibilitou suportar estes sentimentos e contatar com as dores que o medo provoca diante de uma situação nova, tanto para o grupo como para mim. O contexto para mim também era imprevisível e sinto que os encontros se construíram legitimando cada fala. Tenho a convicção que o que possibilitou o contexto dos encontros durante estes dois anos foi a postura de respeito, curiosidade e sem julgamento diante das nossas diferenças, que nos desafiavam, em cada fala, para construir significados e co-construir realidades multiversas.

 

Referências

 

1- Fundação de Assistência Social e Cidadania da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Programa de abrigagem modalidade casa lar, 2005. Disponível em:http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/fasc/usu_doc/edital.pdf#search=%22abrigagem%20em%20Casa%20Lar%20%22POrto%20Alegre%22%22Acesso em 01/10/2006.

2- BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei federal 8.069/1990.

3- MORGAN, A. What is Narrative Therapy? An easy-to-read introduction. Adelaide: Dulweich Center Publication, 2000.

4- ELKAIM, M.. Se Você Me Ama, Não Me Ame: Abordagem Sistêmica em Psicoterapia Familiar e Conjugal. São Paulo: Papirus, 1990.

5- GRANDESSO, M. A. Sobre a Reconstrução do Significado: Uma análise Epistemológica e Hermenêutica da Prática Clínica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.

6- ANDERSEN, T. Processos Reflexivos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

7-¬†GUANAES, C.¬†A Constru√ß√£o da Mudan√ßa em Terapia de Grupo ‚Äď um enfoque construcionista social. S√£o Paulo: Vetor, 2006.

8-¬†GERGEN, K.¬†Construir la realidad: el futuro de la psicoterapia.¬†Barcelona: Paid√≥s, 2006.9-¬†MATURANA, H.Emo√ß√Ķes e Linguagem na Educa√ß√£o e na Pol√≠tica.¬†Belo Horizonte: UFMG, 2001.